quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Lugar da Alma

Às vezes precisamos nos afastar um pouco de nós mesmos e olhar para o que existe além.
Depois de pouco mais de dois anos decidi retornar, quase que no anonimato. Creio que não há quem lembre a existência deste espaço e talvez por isso, seja bom trazer minha bagunça para cá.
 Muita coisa aconteceu desde minha última passagem, cheguei a pensar que jamais retornaria devido aos tropeços pelo caminho. 
Minha alma habitou num corpo que não lhe era compatível e ficou ali um pouco mais de um ano, mas, como era de se esperar, foi rejeitada. Não haviam ligamentos fortes o suficiente e por mais que lutasse para se ajeitar naquele organismo, o alimento era escasso para a fortalecer. A minha alma hesitou e desistiu. Para romper os poucos fios que a ligavam ao corpo, minha alma se rasgou inteira e desidratou, parecendo folhas secas que envolvem uma espiga.
Assim como o universo não para o seu ciclo, continuei em movimento. Retrocedi na forma de andar, engatinhando para apenas depois poder caminhar de forma ereta.
Jurei à minha alma que jamais habitaria em outro corpo incompatível e que não a deixaria se desidratar novamente.
Pouco tempo passou e depois de algumas aventuras e escolhas, eis que a minha tão querida alma encontrou um novo corpo. Bem mais robusto e com um espaço mais confortável. Porém, apesar do lugar ideal, este corpo ainda trazia vestígios de outras almas que passaram por ele sem pretensão de ficar. A minha, se sentiu intimidada, com medo que outra viesse tirar o seu conforto e sua saúde. Algumas conseguiram frustrá-la e a deixaram doente.
A minha querida me alertou sobre quando prometi que jamais a deixaria se desidratar e me culpou de forma amarga. Mesmo assim, aceitou ficar e tentar a compatibilidade.
Minha alma vive em inconstância neste corpo. Muito bem cuidada, porém, assim como qualquer outro ser, não pode ser alimentada apenas por um componente. Necessita de uma junção de carboidrato, proteína, água, etc. Se receber muito carboidrato e ficar sem água, voltará ao estado que prometi não deixá-la: desidratada.
Há vezes que o corpo não a segura tão bem, não por desafeto, mas desatenção. Outras coisas lhe enchem os olhos momentaneamente e quando se volta para minha alma, ela está com sede.
Minha alma se regozija muitas vezes, mas também se enxerga em apatia. Se sacia, mas também se torna voraz, machucando o corpo que habita.

É incerto dizer agora que, existe um lugar ideal. Não há.
O grande esforço se refere às tentativas inesgotáveis de encontrar saúde na contribuição e no espaço do outro. Se refere às tentativas inesgotáveis de amar.
O amor é o alimento e a água, capazes de trazer a compatibilidade entre a alma e o corpo.

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